Banco Central reduz Selic a 13,75% ao ano antes das eleições e deixa passos futuros em aberto
Comitê voltou a defender "serenidade e cautela" na condução dos juros diante de um contexto de maior incerteza

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil
NATHALIA GARCIA
O Copom (Comitê de Política Monetária) decidiu por unanimidade, nesta quarta-feira (16), reduzir pela quinta vez seguida a taxa básica de juros (Selic) em 0,25 ponto percentual, de 14% para 13,75% ao ano, na última reunião antes das eleições presidenciais.
No comunicado, o colegiado do Banco Central evitou antecipar seus próximos passos e repetiu que, devido aos riscos associados à evolução dos preços, o tamanho total do ciclo de queda de juros será definido "à luz de novas informações visando assegurar a convergência da inflação à meta" de 3%.
O comitê voltou a defender "serenidade e cautela" na condução dos juros diante de um contexto de maior incerteza, com expectativas de inflação distantes do alvo e riscos elevados para suas projeções. Reafirmou que seguirá acompanhando a evolução do cenário "de forma a manter a restrição adequada" para cumprir seu objetivo.
O comitê voltou a fazer um comunicado mais sintético depois dos ruídos provocados em junho e não trouxe grandes novidades no texto. Ainda assim, reconheceu que houve recuo de preços e moderação da atividade econômica desde o encontro de agosto.
Os juros estão no menor patamar desde março de 2025, quando estavam em 13,25% ao ano. Desde o início do recuo da Selic, em março, foram cinco cortes consecutivos de mesma intensidade (0,25 ponto), com queda acumulada de 1,25 ponto percentual.
Esse é um dos ciclos mais suaves de redução de juros feito pelo Banco Central desde a criação do sistema de metas para a inflação, em 1999. O processo vem sendo chamado de "calibração" pelo colegiado em sua comunicação.
A decisão do Copom veio em linha com a projeção consensual do mercado financeiro. Levantamento feito pela Bloomberg mostrou que os 33 analistas consultados esperavam outro corte de 0,25 ponto percentual na Selic.
Na chamada "superquarta", Brasil e Estados Unidos fizeram movimentos opostos na condução dos juros. Mais cedo, o Fed (Federal Reserve, o banco central americano) subiu a taxa em 0,25 ponto percentual, para o intervalo de 3,75% a 4%, na primeira alta desde julho de 2023.
Com isso, a diferença entre os juros dos dois países caiu para 9,75 pontos percentuais, o que pode contribuir para a fuga de investidores do Brasil e pressionar o câmbio.
Para o Copom, o ambiente global continua incerto pela política de juros adotada em algumas economias avançadas e pela guerra no Irã. "Tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por elevação da volatilidade de preços de ativos e commodities", afirmou.
Enquanto o cenário externo permanece desafiador, o ambiente doméstico evoluiu de maneira favorável ao BC. Fatores como recuo da inflação corrente e desaceleração da atividade econômica pesaram na decisão do Copom de seguir cortando os juros.
O comitê observou que a "inflação cheia e a média das medidas subjacentes [que sinaliza tendência para os preços] desaceleraram", situando-se abaixo do teto da meta perseguida pelo BC. O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) desacelerou para 4,22% no acumulado de 12 meses até agosto, puxado pela queda da conta de luz sob impacto temporário do bônus de Itaipu.
O alvo central do BC é 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos. No modelo de meta contínua, em vigor atualmente, o objetivo é considerado descumprido pela autoridade monetária quando a inflação acumulada permanece durante seis meses seguidos fora do intervalo, que vai de 1,5% (piso) a 4,5% (teto).
No cenário de referência do Copom, a estimativa de inflação subiu de 5,1% para 5,2% para este ano e de 3,8% para 3,9% para 2027. A expectativa para o primeiro trimestre de 2028 se manteve em 3,2%.
Devido aos efeitos defasados da política de juros sobre a economia, o BC já tem março de 2028 na mira. Nessa margem de tempo, as expectativas de inflação seguem distantes da meta. Conforme os dados do último boletim Focus, as projeções dos economistas para o IPCA de 2027 e 2028 estão em 4,3% e 3,8%, respectivamente. De acordo com o comitê, o tema tem sido monitorado com atenção, visto que esse afastamento contribui para a determinação dos preços e aumenta o custo do processo de desinflação.
Quanto ao fôlego da atividade econômica, o Copom afirmou ter observado uma "moderação gradual da atividade econômica, principalmente em setores mais cíclicos, embora ainda em patamar resiliente, e mercado de trabalho aquecido."
Ou seja, os indicadores recentes reforçaram a percepção de que os juros elevados estão afetando o dinamismo da economia brasileira. Segundo o BC, os dados se mantiveram consistentes com uma trajetória de desaceleração no acumulado do ano.
Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o PIB (Produto Interno Bruto) desacelerou no Brasil no segundo trimestre, com avanço de 0,5% na comparação com os três meses imediatamente anteriores. O recuo da taxa que mede o consumo das famílias puxou o indicador para baixo. O resultado veio após alta de 1,1% no primeiro trimestre.
O Copom repetiu que vê uma "assimetria altista" no balanço de riscos para inflação, ou seja, manteve a avaliação de que a chance de o IPCA ficar acima do esperado é maior do que a ameaça de ficar abaixo.
A questão fiscal foi mantida entre os fatores que poderiam puxar os preços para cima. Na avaliação do comitê, estímulos ao consumo podem sustentar a atividade econômica aquecida e tirar potência da política de juros. "O comitê segue acompanhando como os desenvolvimentos da política fiscal doméstica impactam a política monetária e os ativos financeiros, reforçando a postura de cautela", reafirmou.
Outra preocupação do colegiado do BC recai sobre a possibilidade de as expectativas de inflação seguirem distantes da meta por longo período em razão dos efeitos do El Niño sobre a produtividade agrícola e os custos de energia e de restrições de oferta de petróleo.
O comitê considera ainda o risco de a inflação de serviços se mostrar mais persistente em função de um hiato do produto mais positivo (quando a economia opera acima do seu potencial e sujeita a pressões inflacionárias) e possíveis impactos decorrentes de políticas econômicas dentro e fora do Brasil, como um câmbio mais depreciado.
O Copom volta a se reunir nos dias 3 e 4 de novembro, quando já será conhecido o resultado das eleições presidenciais. Seis das oito reuniões do ano foram realizadas com quórum reduzido, com desfalque de dois diretores do BC.


