Eleição presidencial caminha para ter menor número de debates desde 1998
A Record cancelou o debate que faria no domingo (27), após Lula e Flávio Bolsonaro não confirmarem presença

Foto: Renato Pizzutto/Band
LUANA LISBOA - A eleição presidencial de 2026 caminha para ter o primeiro turno com menos debates na televisão desde 1998, quando não houve confronto entre candidatos na TV.
Nesta quarta-feira (23), a Record cancelou o debate que faria no domingo (27), após Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) não confirmarem presença. Trata-se de apenas mais um dos encontros cancelados neste ano pela ausência dos dois candidatos, que lideram as pesquisas de intenção de voto.
Até agora, a campanha teve um único confronto, promovido pela Band em 23 de agosto, com Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante), o menor número de participantes num primeiro debate presidencial desde 1989. Romeu Zema (Novo) desistiu no dia do evento, atribuindo a decisão à ausência dos dois favoritos e à mudança de data do encontro.
Resta o debate da Globo, confirmado pela emissora para 1º de outubro, a três dias da votação. A participação de Lula e Flávio ainda não está definida. Se mantido, o primeiro turno terá dois debates.
Ao não confirmar presença no único debate até então, Lula argumentou que ficaria em desvantagem diante de cinco adversários, sendo que dois deles Zema e Renan não precisariam ter sido convidados segundo a legislação eleitoral. A campanha de Flávio tem evitado debates sem Lula para que o senador não se torne o principal alvo dos concorrentes.
Segundo última pesquisa Datafolha divulgada, Lula tem 39% das intenções de voto no primeiro turno, e Flávio, 36%. Com margem de erro de dois pontos para mais ou para menos, os dois estão tecnicamente empatados. Cury aparece com 6%, Caiado, com 4%, Renan, com 3%, e Zema, com 2%.
Segundo o cientista político Carlos Melo, professor do Insper, a ausência dos dois segue uma lógica de cálculo de risco. Candidatos com patamar próximo de 40% têm pouco a ganhar num confronto com adversários que aparecem bem atrás nas pesquisas e interessados em derrubar os líderes.
"Com quem está com 40%, você pode ganhar muito pouco e perder muito", diz. Nesse caso, um escorregão ou uma provocação mal respondida pode comprometer a posição de quem lidera.
Desde 2002, nenhuma eleição presidencial teve menos de três debates no primeiro turno. Foram três em 2002 e em 2006, sete em 2010, cinco em 2014, sete em 2018 e três em 2022.
A única eleição sem debates televisionados desde a redemocratização foi a de 1998, quando Fernando Henrique Cardoso, então presidente e favorito à reeleição, recusou-se a participar dos confrontos. O candidato venceu no primeiro turno.
A decisão do tucano seguiu a mesma lógica que Lula adotaria em eleições adiante. Melo lembra que FHC participou de debates em 1994, quando ainda não era presidente.
Em 2006, Lula, então candidato à reeleição, faltou aos três debates do primeiro turno, promovidos por Band, TV Gazeta e Globo. No segundo turno, o petista participou dos quatro debates contra Geraldo Alckmin, então no PSDB.
A cientista política Daniela Costanzo, pesquisadora do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), relaciona a redução dos debates a mudanças nas campanhas, cada vez mais digitais.
Além disso, o fato de o eleitorado estar mais cristalizado reduz o espaço para conquistar votos num confronto na TV. "Como a gente tem um eleitorado cada vez menor em disputa, tem essa tendência de que a gente tenha cada vez menos debates", diz.
Os dois especialistas apontam ainda uma perda de qualidade nos encontros.
Melo avalia que o debate da Band teve episódios de desrespeito e virulência, e os líderes das pesquisas não teriam por que se submeter a esse constrangimento. Costanzo diz que os debates tratam cada vez menos de propostas de políticas públicas e talvez já não cumpram a função de pôr ideias em confronto.
Quem perde, avalia Melo, é o eleitor. "É evidente que isso é ruim, porque o eleitor poderia decidir com um grau de informação maior, e ele vai decidir com um grau de informação menor."
Sem o confronto direto, diz Costanzo, esse eleitor fica mais dependente de outras fontes e mais sujeito ao conteúdo que o algoritmo lhe entrega.


