Lula promete mudar o jeito de governar, ataca Flávio e diz que venceu intromissão externa
O petista derrotou no segundo turno Flávio, de virada, para um quarto mandato inédito na história brasileira.

Foto: Ricardo Stuckert/PR
Em discurso após a vitória nas urnas, neste domingo (25), o presidente Lula (PT) prometeu mudar seu jeito de governar no novo mandato, atacou o senador Flávio Bolsonaro (PL) e afirmou que precisou vencer a intromissão de plataformas digitais na eleição. O petista derrotou no segundo turno Flávio, de virada, para um quarto mandato inédito na história brasileira. Às 23h16, com 99,99%% das urnas apuradas, o presidente marcava 51,79% dos votos, ante 48,21% do adversário.
No discurso, Lula agradeceu aos eleitores, aos coordenadores de sua campanha e ao vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB). Também exaltou a juventude, os idosos e as pessoas que, mesmo doentes, foram votar. O petista afirmou que a eleição foi marcada por interferência de plataformas digitais e defendeu a regulamentação dessas empresas. Também disse que a eleição foi "uma derrota do negacionismo e da mentira" e que se sentiu constrangido em ter feito debates junto de Flávio, a quem chamou de "representante do milicianismo".
O presidente enalteceu o tamanho das manifestações no segundo turno, em especial a da avenida Paulista deste sábado (24). Disse que pediu para tocar o Hino da Independência e se emocionou ao ver os manifestantes cantando "ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil" e que isso significa que o país não aceita ser quintal de ninguém. Ele também rememorou a frase de Chico Buarque de que o Brasil não falava grosso com a Bolívia e nem fino com os Estados Unidos.
O tom do discurso foi de união. Ele afirmou que pretender govern todas as religiões serão respeitadas igualmente em seu governo e defendeu o papel do Estado laico na garantia da liberdade religiosa. "Eu não tenho preferência por nenhuma religião. Eu tenho preferência pelo respeito à fé do povo brasileiro", disse. "Este país está pronto para ser construído. Eu não vou falar a palavra unidade nacional, porque essa palavra nem sempre cabe nesse país, mas eu quero que vocês saibam: se depender de mim, esse país só tem que ser civilizado. Esse país tem uma Constituição. Ninguém é obrigado a gostar do presidente eleito, mas ele foi eleito para governar para todos e ele foi eleito para governar com base no respeito da Constituição."
Sinalizou ainda ao Congresso. "Já tem gente falando: 'o Lula vai ter muita dificuldade para governar, porque o Congresso está mais conservador'. Eu não escolhi o Congresso, foi o povo que escolheu. E é com ele que eu vou votar, vou trabalhar e vou aprovar as coisas."
"Essa eleição me ensinou muitas lições. Posso dizer que vamos mudar o jeito de governar esse país. Vamos fazer o povo participar mais dessas decisões. E quero dizer a vocês que a comunicação digital vai ganhar esp aço muito grande. Eu inclusive já ganhei um celular [...] e pode ficar certo que daqui pra frente eu vou conversar muito com o povo diretamente todo dia." Ele agradeceu ao deputado federal André Janones (Rede-MG), que comandou um grupo de WhatsApp com mais de 10 milhões de apoiadores no segundo turno, e o chamou de "general".
O presidente também afirmou que o governo federal terá participação maior na segurança pública. Segundo ele, a Constituição de 1988 transferiu aos estados a responsabilidade pela área, mas o governo federal passará a atuar para garantir mais tranquilidade à população. "Para o povo trabalhador, a gente vai dar proteção; para o bandido, a gente vai dar prisão", declarou. Lula chegou por volta das 19h50 deste domingo no hotel, onde acompanhou a apuração ao lado do filho Luís Cláudio, da primeira-dama Janja, do vice-presidente Alckmin, de ministros, ex-ministros, membros da campanha e outros aliados.
Petistas reunidos no local demonstravam otimismo com a possibilidade de uma virada de Lula sobre Flávio. Integrantes do partido afirmavam que o presidente estaria avançando em cidades onde perdeu no primeiro turno e avaliavam que o público nas manifestações em São Paulo surpreendeu. Apesar da confiança, havia a expectativa de que o resultado fosse acompanhado de contestações e questionamentos sobre decisões judiciais relacionadas à eleição.
Este domingo de segundo turno foi marcado por denúncias de falhas no transporte público em diferentes cidades, incluindo São Paulo e Salvador, que levaram a campanha de Lula a pedir a ampliação do horário de votação. A equipe de Flávio também solicitou a extensão em determinados municípios.Ao longo do dia, aliados petistas criticaram a demora do presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), Kassio Nunes Marques, em deliberar sobre os pedidos das campanhas para prorrogar o prazo. A coordenação da campanha viu boicote por parte da prefeituras que dificultaram a viabilização do transporte público.
O presidente também conversou com a imprensa em frente à sua casa, no Alto de Pinheiros, zona oeste de São Paulo. Na ocasião, ele incentivou que as pessoas fossem às urnas: "Quero pedir que o povo não desista de votar. E nós estamos deixando o pedido para a Suprema Corte para que ela possa prorrogar o processo eleitoral, para que as pessoas que foram proibidas de votar por sacanagem de prefeito compareçam a votar". De acordo com o petista, a medida permitiria que eleitores afetados pela falta de transporte público durante a manhã tivessem mais tempo para chegar aos locais de votação."Não é possível, em pleno século 21, você ter prefeito tentando coibir o povo de exercer o seu livre direito democrático de votar", disse. "É inexplicável numa cidade como São Paulo."
À tarde, o ministro Cristiano Zanin, do STF (Supremo Tribunal Federal), decidiu estender o horário das eleições em todo o Brasil até às 19h. Como mostrou a Folha de S.Paulo, a decisão é inédita ao menos desde a adoção da urna eletrônica. As taxas de abstenção e de votos inválidos registraram uma queda recorde em relação ao primeiro turno e atingiram os níveis mais baixos desde 2002, ano em que a urna eletrônica foi universalizada no país. No segundo turno, 3 milhões de pessoas que não votaram na primeira etapa compareceram às urnas. O número total de abstenção neste domingo foi de 30,4 milhões.
Lula ainda afirmou que pretendia pedir a prisão de prefeitos que tenham atuado para dificultar o deslocamento de eleitores. "Depois das eleições, o próximo passo é pedir a prisão desse prefeito por crime eleitoral", declarou. Antes do resultado, o ex-ministro José Dirceu (PT) foi questionado se o PT demorou a solicitar a prorrogação. O petista disse que achou o tempo de duas horas correto e que a interferência de Zanin se fez necessária."Achei estranho um comentarista dizendo que o PT tinha tumultuado a eleição, que é um absurdo o Zanin tomar essa medida, mas quem ia tomar a medida, o Kassio Nunes?"
Em Salvador, a Justiça Eleitoral mandou prender o secretário municipal de Mobilidade, Pablo Souza. Em São Paulo, a Federação Brasil da Esperança que reúne PT, PC do B e PV pediu a prisão em flagrante do secretário municipal de Mobilidade Urbana e Transporte e do presidente da SPTrans. O juízo negou, contudo. Mais cedo, Lula votou em colégio estadual em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista. Ele voltou a elogiar a mobilização no segundo turno. No dia anterior, o petista reuniu apoiadores na avenida Paulista, em São Paulo, com extensão de pelo menos 12 quarteirões. Na ocasião, o presidente comparou a disputa deste ano com a de 1989.
"Do ponto de vista sociológico foi quase inexplicável. Não foi partido político, não foi sindicato, não foi igreja, não fui eu nem Alckmin. O povo foi pra rua para defender suas conquistas", afirmou Lula na manhã deste domingo. "Só estou aqui cumprindo esse papel por causa do povo brasileiro. E o povo brasileiro sempre foi muito generoso comigo", acrescentou.
O petista também criticou o adversário e disse que a sociedade não permitiria um "miliciano no comando do Palácio do Planalto".
"Todo mundo sabe a relação dele com [Daniel] Vorcaro, [ex-dono do Banco Master,] todo mundo sabe a relação dele com um policial que matou uma menina de cinco anos", disse.


