Nossa Senhora, bets, STF e debate cancelado: lembre os principais momentos da eleição

Relembre momentos da campanha muitas vezes adjetivada como "morna"

Por FolhaPress
Às

Nossa Senhora, bets, STF e debate cancelado: lembre os principais momentos da eleição

A disputa eleitoral para presidente deste ano, pelo menos no primeiro turno, não foi de superlativos. Não houve grandes oscilações nas pesquisas eleitorais, debates acirrados ou memes memoráveis como os de 2022.

Num país em constante turbulência, a corrida para o Palácio do Planalto, que costuma ser a protagonista absoluta nesse período, foi por vezes ofuscada por crises – sobretudo a do Banco Master e a do STF (Supremo Tribunal Federal), com a TV Justiça marcando recordes de audiência.

O que sobrou foi conteúdo feito por inteligência artificial. Do avatar de Jair Bolsonaro na convenção no PL à estética pasteurizada que inundou as propagandas políticas, boa parte da criatividade foi terceirizada aos robôs.

Foi uma campanha muitas vezes adjetivada como morna. Lembre alguns momentos:


MISSÃO IMPOSSÍVEL

O período eleitoral começou oficialmente no dia 16 de agosto, mas um dos candidatos quase tropeçou na largada.

Faltando dois dias para o prazo final das inscrições no TSE (Tribunal Superior Eleitoral), Flávio Bolsonaro (PL) não conseguia registrar sua candidatura à Presidência da República.


VEJA ABAIXO FERRAMENTAS QUE AUXILIAM A DECIDIR O VOTO

O motivo: ele havia sido filiado, sem seu aval, ao partido do MBL (Movimento Brasil Livre), o Missão. A ficha de filiação registrou o endereço do senador como "Rua dos Bandidos, nº 666, Bairro Miliciano".

No mesmo dia, porém, Flávio teve seu vínculo ao PL restabelecido após decisão do presidente do TSE, Kassio Nunes Marques.


FALA MAL DE MIM

Em agosto, o primeiro debate entre presidenciáveis das eleições foi marcado pela ausência dos principais candidatos, o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro.

Isso não impediu que os dois fossem o foco do evento. Os três candidatos que compareceram não economizaram nas críticas aos líderes.

Participaram Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante). O encontro transmitido pela Band foi o confronto inaugural mais esvaziado desde a redemocratização.

O candidato do Missão apostou na retórica virulenta. "Vocês não estão vindo porque vocês são criminosos", disse sobre Lula e Flávio. Afirmou também que ambos estavam "fugindo como cadelas" dos debates.


EFEITO MASTER

Um dos principais temas da campanha foi o Banco Master, liquidado em 2025 deixando rombo bilionário. Flávio Bolsonaro precisou responder inúmeras vezes sobre mensagens trocadas com o banqueiro Daniel Vorcaro, em que pedia dinheiro para bancar o filme "Dark Horse", cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Segundo revelou o site The Intercept Brasil, o valor total negociado foi de R$ 134 milhões,e ao menos R$ 61 milhões foram pagos.

Às vésperas da prisão de Vorcaro e da liquidação do Master pelo Banco Central, Flávio enviou uma mensagem ao ex-banqueiro: "Irmão, estou e estarei contigo sempre".

Durante entrevista ao Jornal Nacional, no final de agosto, Flávio se recusou a explicar o uso do dinheiro. "Não tem absolutamente nada de errado em um filho buscar financiamento privado para um filme do próprio pai", disse.

O filho de Bolsonaro é formalmente investigado no Supremo no inquérito que envolve a produção. A Polícia Federal pediu para "apurar a possível prática dos crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros delitos correlatos".

Como mostrou a Folha, Flávio prometeu, na época em que as mensagens foram reveladas, prestar contas sobre o financiamento do filme, mas acabou delegando essa tarefa para a produtora Go Up Entertainment, que apresentou apenas uma perícia própria e privada.

Apesar disso, o candidato vem criticando ao longo de sua campanha as benesses de Vorcaro recebidas por ministros do STF.

Flávio também pediu ao ministro André Mendonça que abrisse uma investigação contra Lula, para apurar se o presidente atuou a favor do dono do Master. Em mensagens reveladas pelo jornal O Globo, o advogado Walfrido Warde, que fazia parte da defesa de Vorcaro, fala sobre um suposto uísque que teria sido dado de presente pelo ex-banqueiro a Lula.

Em setembro, a Polícia Federal deflagrou uma operação contra 29 pessoas que teriam participado de um esquema de desvio de recursos de emendas parlamentares para o filme "Dark Horse".

Entre os alvos da operação estão a produtora Karina Gama e o deputado federal Mario Frias (PL-SP), autor das emendas e aliado de primeira ordem de Flávio. Frias chamou a operação de "cortina de fumaça" em ano de eleição.


CASO LULINHA

As investigações sobre a relação de um dos filhos de Lula com a lobista Roberta Luchsinger puseram o tema da corrupção novamente no caminho de uma campanha eleitoral do presidente. A PF investiga Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, por suspeita de tráfico de influência junto ao governo federal.

Segundo diálogos obtidos pela PF, Roberta dizia atuar em nome do filho do presidente.

Aliados de Lula avaliaram, nos bastidores, que a situação dificultou o plano de desgastar Flávio.

Em entrevista ao Jornal Nacional, Lula chamou Roberta de "pilantra". Nos debates preparatórios para a entrevista, houve consenso entre membros da equipe do presidente de que ele deveria admitir decepção com o filho. Posteriormente, o petista disse que ela era o "Vorcaro feminino".


ASCENSÃO INTERROMPIDA

O candidato Augusto Cury, do Avante, parecia que ia decolar, mas perdeu gás.

Na primeira pesquisa Datafolha após o registro das candidaturas, no dia 21 de agosto, Cury ficou atrás de Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Zema (Novo). Marcava 2% de intenções de voto.

Passou uma semana, e Cury marcou 11% o na pesquisa BTG/Nexus. Dois dias depois, na Quaest, o escritor chegou a 10%. No dia seguinte, no Datafolha, marcava 8%. Mas arrefeceu. Na pesquisa Datafolha da última quinta-feira (1º), atingia 4%.

Em duas semanas, de 16 a 29 de agosto, o escritor ganhou quase 2,5 milhões de seguidores no Instagram, muito à frente de Flávio, Renan e  Lula, de acordo com um relatório do Instituto Democracia em Xeque.

Logo antes de ter subido nas pesquisas, Cury participou de sabatina no Jornal Nacional e virou meme nas redes por defender propostas como usar drones para socorrer mulheres em situação de violência, empregar influenciadores nas embaixadas e criar um Ministério da Inteligência Artificial.


CRISE NO STF OFUSCA A CAMPANHA

Em meio a uma campanha morna, o pleito perdeu, por vezes, protagonismo para o Judiciário.

No primeiro dia de setembro, o ministro André Mendonça tirou o sigilo de um relatório produzido pela PF que revelou que Vorcaro mantinha contato com uma pessoa apontada como sendo o ministro Alexandre de Moraes.

Nas mensagens, o ex-banqueiro pergunta a Moraes, dois dias antes de sua prisão, se deveria deixar o país. Os diálogos também mostram que o ministro revisou o contrato de R$ 131 milhões entre o Master e o escritório de sua mulher, Viviane Barci de Moraes.

Em resposta, Moraes pediu a Fachin a abertura de uma investigação de Mendonça por abuso de autoridade, improbidade e crime de responsabilidade.

Mendonça então determinou o afastamento de Andrei Rodrigues da direção-geral da Polícia Federal. No dia seguinte, Flávio Dino reintegrou Rodrigues ao comando da PF.

Pressionado pela crise no STF, Fachin marcou uma sessão plenária para discutir se Alexandre de Moraes deveria ser investigado. No dia da sessão, Dino pediu vista do processo, o que suspendeu a análise por até 90 dias.

Os presidenciáveis tentaram capitalizar votos em cima da crise instaurada na corte.

Flávio Bolsonaro buscou associar a figura de Moraes a Lula. Rapidamente, surgiu nas redes o mote "fora, Lula; fora, Moraes". A equipe do petista, por sua vez, buscou descolar a imagem do presidente do caso.

De acordo com pesquisa feita pelo Datafolha, as acusações contra Moraes não mudaram a preferência de 85% dos eleitores, enquanto aquelas contra André Mendonça não afetaram 86%.

Em outro recorte da pesquisa, 38% dos eleitores citaram Lula como candidato à Presidência prejudicado pela crise do STF, e 31% apontaram Flávio Bolsonaro.


A GRANDE APOSTA

Com a eleição batendo à porta e as pesquisas mostrando uma disputa apertada, Lula soltou um pacote de medidas que incluíram um reajuste de 15% no Bolsa Família a 17 dias do primeiro turno.

O novo valor começará a ser pago aos beneficiários do programa em 19 de outubro, menos de uma semana antes do segundo turno das eleições, marcado para o dia 25.

No dia seguinte, em Guarulhos (SP), Lula disse em comício que, no que depender dele, as bets não vão mais atuar no Brasil. Faltando nove dias para a eleição, assinou uma medida provisória para jogar as apostas online na ilegalidade em todo o país.


GUERRA SANTA

Outra personagem que assumiu protagonismo na reta final da campanha foi Nossa Senhora Aparecida.

Circulou um boato de que bolsonaristas teriam uma proposta de para tirar da santa o título de padroeira do país. Não há registro de nenhuma declaração nesse sentido do candidato do PL ou de sua assessoria.

Flávio, assim como Jair e Michelle Bolsonaro, mantém relação próxima com a Comunidade das Nações, igreja fundada pelo bispo JB Carvalho. O religioso defendeu em livro que Nossa Senhora Aparecida deixasse de ser reconhecida como padroeira do Brasil.

Aliados de Flávio admitiram que o candidato sofreu desgaste de imagem com o caso.

Lula, ao final de uma entrevista na quarta-feira (30), recebeu uma imagem de Nossa Senhora e falou em jamais "acabar" com a santa. A desinformação virou munição de rivais e abriu uma disputa religiosa, explorada inclusive pelo vice-presidente, Geraldo Alckmin (PSB), e pela primeira-dama, Janja.


O DEBATE QUE NÃO HOUVE

A campanha para o primeiro turno chegou ao fim sem que Lula e Flávio, líderes nas pesquisas eleitorais, se confrontassem em um debate.

É a primeira vez em que um dos candidatos líderes de pesquisas não participa de nenhum confronto televisionado no primeiro turno desde 2006, quando Lula, disputando a reeleição, também fez essa opção.

O último debate seria realizado pela Globo na quinta-feira (1º). Lula confirmou no dia anterior à emissora que não participaria.

Houve uma decisão do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) proibindo a Globo de exibir o púlpito vazio de Lula no encontro e outra do STF (Supremo Tribunal Federal) a favor da participação do candidato Renan Santos, do Missão. Flávio então anunciou que não compareceria. Em seguida, a rede cancelou o debate.

No lugar, a emissora exibiu novela.

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