Criminosos usam TikTok para divulgar e vender conteúdo de abuso sexual infantil
Investigação identificou mais de 30 perfis que direcionavam usuários ao Telegram

Foto: Reprodução | Divulgação/Alexas Fotos por Pixabay
Criminosos utilizam o TikTok para divulgar e comercializar conteúdo de abuso sexual infantil. A estratégia consiste na publicação de vídeos e no uso de códigos nos comentários para evitar a fiscalização da plataforma e direcionar interessados ao Telegram, onde os materiais são vendidos.
A informação foi divulgada pelo portal "g1", que monitorou mais de 30 perfis durante semanas e identificou pelo menos 35 links publicados no TikTok que levavam a páginas de comercialização desse tipo de conteúdo. A maior parte direcionava para o Telegram.
Os criminosos utilizam vídeos que nem sempre têm relação aparente com o material anunciado. Os interessados também recorrem a códigos nos comentários para demonstrar interesse sem fazer pedidos explícitos. Em alguns casos, outras contas respondem às mensagens e orientam os usuários a acessar links ou informações disponíveis nos perfis.
No Telegram, o material é comercializado por meio de conversas privadas, bots ou “miniapps”, que funcionam como páginas dentro do próprio aplicativo. Os pagamentos são feitos por criptomoedas e, em alguns casos, por Pix.
Os preços encontrados variam. Um dos canais oferecia pacotes por valores a partir de R$ 10, enquanto outro site cobrava até US$ 25, cerca de R$ 130, pelo acesso a milhares de vídeos.
Antes das vendas, os criminosos costumam enviar amostras gratuitas para conquistar compradores. Segundo investigadores da Polícia Federal ouvidos pelo g1, transações por Pix deixam registros que podem auxiliar na identificação dos envolvidos, mesmo quando são utilizadas contas de terceiros.
Plataformas dizem combater conteúdo
O Telegram afirmou que proíbe o compartilhamento de conteúdo de abuso sexual infantil e informou ter excluído mais de 300 mil grupos e canais relacionados ao material apenas neste ano.
O TikTok disse que remove rapidamente publicações desse tipo e bane as contas envolvidas. A plataforma afirmou utilizar tecnologia e sistemas de monitoramento para identificar conteúdos que explorem ou causem danos a crianças e adolescentes.
A Meta, responsável pelo Instagram, afirmou que utiliza tecnologia para detectar possíveis violações e adotar as medidas cabíveis.
Segundo Thiago Tavares, presidente da SaferNet Brasil, estratégias semelhantes também são utilizadas em outras plataformas, como X, YouTube e Facebook. A organização afirma compartilhar com empresas de tecnologia termos usados para identificar esse tipo de crime.
Nova lei aumenta penas
Desde agosto, uma nova legislação brasileira prevê penas mais severas para crimes envolvendo conteúdo de violência sexual contra crianças e adolescentes.
Quem produz ou vende esse material pode ser condenado a quatro a dez anos de prisão e multa. Para quem adquire, possui ou armazena, a pena prevista é de três a seis anos de prisão e multa.
A lei foi sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 6 de agosto de 2026. A legislação também passou a incluir conteúdos produzidos por inteligência artificial na definição de violência sexual contra crianças e adolescentes.
De acordo com Ana Cláudia Cifali, coordenadora jurídica do Instituto Alana, a responsabilização pode alcançar diferentes etapas da cadeia de produção e distribuição do material.
Registros aumentaram no Brasil
Dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública apontam que o Brasil registrou 4.063 casos relacionados à produção, posse ou distribuição de material de abuso sexual infantil em 2025, alta de 23% em relação aos 3.280 registros de 2024.
O levantamento também aponta que 34,2% dos autores denunciados às polícias civis eram adolescentes.
Para Cauê Martins, coordenador de Infância e Juventude do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a facilidade para encontrar esse tipo de material demonstra como as redes sociais podem funcionar como porta de entrada para práticas de exploração e aliciamento de crianças e adolescentes.
Pronunciamento das empresas
TikTok
"Removemos esse conteúdo rapidamente e banimos permanentemente as contas envolvidas. Utilizamos tecnologia de ponta e sistemas robustos para monitorar e remover qualquer conteúdo que tente explorar ou causar danos a jovens.
Não permitimos conteúdos que retratem ou disseminem o abuso ou a exploração sexual infantil. Quando tomamos conhecimento de qualquer conteúdo desse tipo — seja por meio dos nossos próprios métodos de detecção, denúncias da comunidade ou parcerias com a indústria —, agimos imediatamente para removê-lo, banir as contas envolvidas e reportar os casos ao NCMEC (em português: Centro Nacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas).
Dados do Nosso Relatório de Aplicação das Diretrizes da Comunidade mais recente, do primeiro trimestre de 2026, demonstram a eficácia dos nossos sistemas em fazer cumprir nossas regras. 99,8% dos conteúdos que violaram nossas políticas sobre abuso sexual e físico de jovens foram removidos proativamente da plataforma."
Telegram
"A distribuição de material de abuso sexual infantil é expressamente proibida pelos termos de serviço do Telegram, e dedicamos esforços significativos para erradicá-la de nossa plataforma. Mais de 339.760 grupos e canais relacionados a material de abuso sexual infantil foram removidos em 2026.
Além da moderação humana, o Telegram escaneia todas as mídias enviadas para sua plataforma pública, comparando-as com um banco de dados de hashes de conteúdo de material de abuso sexual infantil previamente removido por moderadores, complementado por conjuntos de dados da Internet Watch Foundation e denúncias de ONGs de todo o mundo.
Como resultado desses esforços, o Telegram praticamente eliminou a disseminação pública de material de abuso sexual infantil em sua plataforma.
O fato de agentes maliciosos precisarem anunciar em outras plataformas significa que eles não conseguem existir publicamente no Telegram como resultado dos esforços de moderação do Telegram. Estatísticas diárias e mais informações: Telegram.org/safety"
Meta
"A Meta tem regras contra exploração sexual, abuso e nudez infantil, nudez e atividade sexual de adultos e exploração sexual de adultos. A empresa emprega amplos esforços, incluindo o investimento em tecnologia, para detectar proativamente potenciais violações às suas regras e tomar as medidas cabíveis."
Denuncia
Em casos de suspeita de violência infanto-juvenil, as denúncias podem ser feitas através dos seguintes canais:
• Delegacias especializadas no atendimento de crianças ou de mulheres;
• Disque 100: recebe denúncias de violações de direitos humanos. A denúncia é anônima e pode ser feita por qualquer pessoa;
• Ministério Público;
• Polícia Militar - 190: quando a criança está correndo risco imediato;
• Profissionais de saúde: médicos, enfermeiros, psicólogos, entre outros, precisam fazer notificação compulsória em casos de suspeita de violência. Essa notificação é encaminhada aos conselhos tutelares e à polícia;
• Qualquer delegacia de polícia;
• Samu - 192: para pedidos de socorro urgentes;
• Videochamada em Língua Brasileira de Sinais (Libras);
• WhatsApp do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos: (61) 99656-5008.


