Endividamento compromete estudo e saúde mental de universitários, aponta pesquisa inédita
Segundo o recém-lançado Índice Fecap de Endividamento Universitário Paulista, 68,4% dos estudantes têm alguma dívida ativa e convivem com um cenário de vulnerabilidade financeira

Foto: Wilson Dias/Agência Brasil
LUCAS LEITE - O silêncio de uma sala de aula pode significar um problema além da universidade. O estudante está fisicamente presente, mas o pensamento vai para longe dos livros e passa a fazer contas, calcular se o limite do cartão de crédito será suficiente para as compras do mês ou se a próxima mensalidade caberá no orçamento.
A cena, que poderia parecer exceção, tornou-se parte da rotina de universitários do estado de São Paulo. É o que aponta o levantamento inédito da Fecap (Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado).
Segundo o recém-lançado IFEUP (Índice Fecap de Endividamento Universitário Paulista), realizado com 3.248 estudantes de instituições públicas e privadas do estado entre janeiro e março de 2026, 68,4% têm alguma dívida ativa e convivem com um cenário de vulnerabilidade financeira.
A pesquisa, conduzida pelo centro de estudos em finanças da Fecap e coordenada pelo professor Ahmed Sameer El Khatib, registrou 63,8 pontos em uma escala de 0 a 100, inserindo o cenário paulista em uma faixa classificada como de "vulnerabilidade alta".
O endividamento estudantil, mostra a pesquisa, não é fruto de gastos desnecessários. É reflexo de um desequilíbrio estrutural entre o custo de permanência acadêmica como transporte e internet e a baixa renda vinda de estágios ou trabalhos informais.
Para o professor El Khatib, os primeiros anos de autonomia financeira são determinantes para o futuro do estudante. "Se essas questões não forem tratadas adequadamente desde cedo, o aluno pode carregar consequências financeiras por toda a vida."
"O primeiro atraso no cartão de crédito ou o primeiro empréstimo feito para comprar um celular, por exemplo, acaba influenciando como ele vai lidar com dívidas no futuro", explica o professor da Fecap.
A pesquisa também aponta que a falta de uma reserva financeira é realidade para a maioria dos entrevistados. Segundo o levantamento, 74,1% afirmam não ter qualquer fundo de emergência. Sem essa proteção, qualquer imprevisto como o conserto de um notebook acaba se transformando em novas dívidas.
Além disso, a pressão financeira é maior entre os estudantes de baixa renda: para aqueles com renda familiar de até R$ 3.000, o índice de endividados chega a 77,2%. Já para famílias com renda acima de R$ 15 mil, esse número cai para 39,7%.
"Quanto menor a renda domiciliar, maior o uso do crédito como mecanismo de sobrevivência", ressalta a pesquisa. Esse cenário é agravado pelo uso do cartão de crédito, que representa 46% das fontes de dívida e funciona como uma extensão da renda mensal.
O equilíbrio financeiro e a rotina universitária também deixam marcas na saúde mental e física dos estudantes. De acordo com a pesquisa, 61,5% afirmam sofrer com ansiedade relacionada ao dinheiro, enquanto 42% relatam sentir vergonha da própria condição financeira. Além disso, quase 4 em cada 10 entrevistados dizem perder o sono diante da preocupação com dívidas e contas acumuladas.
Para Ana Cristina Limongi, psicóloga organizacional e professora da FIA Business School, a ansiedade ligada às finanças funciona como um sinal de alerta que não deve ser ignorado. Segundo ela, muitos jovens recorrem à negação como mecanismo de defesa. Isso ocorre diante da pressão econômica.
"Quando a pessoa está desconfortável, tende a minimizar a situação, pensar que aquilo não é tão grave. Aos poucos, esse incômodo vai sendo substituído por outros comportamentos", afirma Limongi.
As dificuldades também se refletem diretamente no rendimento acadêmico. Ainda segundo a pesquisa, 44% dos estudantes relatam queda na capacidade de concentração em razão das dívidas.
Para explicar, El Khatib recorre à chamada "teoria da escassez". Segundo o professor, quando a preocupação com a sobrevivência financeira ocupa os pensamentos, o estudante perde parte da capacidade de concentração e passa a ter menos recursos cognitivos disponíveis para o aprendizado.
"O aluno falta à aula para trabalhar, evita atividades extracurriculares e até trabalhos em grupo. Ele acaba priorizando a renda imediata em detrimento da formação. É uma lógica de curto prazo que limita a visão de futuro", afirma El Khatib.
Neste cenário, a evasão deixa de ser hipótese. Conforme a pesquisa, 19% dos universitários entrevistados afirmam já ter cogitado trancar o curso por falta de dinheiro, enquanto 23% disseram ter faltado às aulas porque não tinham dinheiro para deslocamento ou alimentação.
A reversão desse quadro exige estratégias que mistu ram método e mudança de comportamento. O professor da Fecap sugere encarar as contas e adotar a "bola de neve emocional".
"Primeiro, paga a menor dívida. Pagando a menor dívida, o estudante ganha motivação e passa a perceber uma evolução na própria situação financeira", explica El Khatib. "Minha recomendação é priorizar aquilo que pode ser resolvido mais rapidamente, retirando essas pendências do radar para, depois, enfrentar as dívidas mais difíceis."
Já a professora da FIA reforça a importância da proatividade e do fim do tabu sobre os problemas financeiros. "O endividamento estudantil não pode ficar escondido. Há infinitas possibilidades de solução, tanto por meio do aluno como da instituição. Para não se acomodar, a solução é enfrentar, mesmo que
pareça muito difícil."
ESCALA DO ÍNDICE FECAP DE ENDIVIDAMENTO UNIVERSITÁRIO PAULISTA
Faixa de Pontuação Classificação
0 a 20 pontos Situação saudável
21 a 40 pontos Atenção moderada
41 a 60 pontos Pressão relevante
61 a 80 pontos Vulnerabilidade alta
81 a 100 pontos Risco crítico


