Entre a UTI e a volta para casa: como os hospitais de transição ajudam pacientes a recuperar autonomia

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Foram três meses internado em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), mais de 90 bolsas de sangue transfundidas e um prognóstico que parecia não deixar espaço para novas possibilidades. Aos 67 anos, o aposentado Fernando Barretto havia superado a fase mais crítica de uma grave hemorragia no duodeno, mas ainda estava longe de reunir condições para voltar para casa. Foi nesse momento que surgiu uma alternativa ainda pouco conhecida pela maioria dos brasileiros: o hospital de transição. A sugestão veio da filha, que é médica.
"Eu tinha uma ideia equivocada. Achava que um paciente em cuidados paliativos ia para lá apenas para receber conforto no fim da vida. Descobri que não é assim. Cheguei como paciente paliativo e, à medida que fui melhorando, passei para um programa de reabilitação", conta Fernando, que recebeu alta após dois meses de internação no hospital de transição. Hoje, recupera gradualmente a autonomia e segue o tratamento em casa.
O elo entre o hospital e a vida em casa
Embora consolidado em países como Estados Unidos e diversas nações europeias, o modelo de hospital de transição ainda é relativamente recente no Brasil. A proposta é atender pacientes que já superaram a fase aguda da doença, mas continuam necessitando de assistência especializada antes do retorno ao ambiente domiciliar.
É o caso de pessoas que deixam a UTI após internações prolongadas, sofreram um AVC, passaram por cirurgias complexas, enfrentam doenças neurológicas, câncer, insuficiência respiratória ou perderam parte da capacidade de realizar atividades básicas, como caminhar, alimentar-se ou tomar banho. Nesses casos, a reabilitação intensiva e o acompanhamento multiprofissional tornam-se fundamentais para recuperar funcionalidade, controlar sintomas e reduzir o risco de novas internações.
Primeiro hospital de transição do Norte e Nordeste, a Florence foi inaugurada em Salvador em 2017 e, atualmente, também mantém uma unidade em Pernambuco. Desde então, já acompanhou mais de cinco mil pacientes reabilitados. Segundo o cofundador do hospital, Lucas Andrade, um dos maiores desafios foi apresentar esse modelo assistencial ao próprio sistema de saúde. "Foi preciso construir uma relação de confiança com hospitais, médicos e operadoras para mostrar que o hospital de transição não substitui o hospital geral. Ele dá continuidade ao cuidado, permitindo que pacientes que já não precisam da estrutura de alta complexidade continuem recebendo assistência intensiva voltada para a recuperação."
Recuperar o paciente também significa cuidar da família
Grande parte dos pacientes chega ao hospital de transição após longos períodos em terapia intensiva. Muitos apresentam a chamada Síndrome Pós-UTI, caracterizada por limitações físicas, cognitivas e emocionais que podem persistir por meses.
Segundo o médico intensivista João Ramos, presidente da Florence, estudos internacionais indicam que entre 50% e 60% dos pacientes que permanecem internados em UTI desenvolvem algum grau de comprometimento funcional após a alta. "O paciente deixa a UTI vivo, mas muitas vezes ainda não consegue caminhar, alimentar-se sozinho ou retomar sua rotina. A reabilitação precoce e individualizada reduz essas limitações e prepara tanto o paciente quanto a família para uma volta mais segura ao domicílio."
Para Fernando Barretto, a recuperação não foi um desafio apenas individual. "Minha esposa ficou comigo o tempo inteiro. Meus filhos se revezavam e ainda contratamos duas cuidadoras. É um processo muito longo e desgastante para toda a família. O apoio deles foi fundamental."
Mais do que oferecer continuidade ao tratamento, os hospitais de transição também treinam familiares e cuidadores para a nova rotina em casa. O objetivo é que a alta represente não apenas o fim da internação, mas o início de uma retomada segura da autonomia e da qualidade de vida.


