O 1% mais rico do mundo esgota 'cota' de emissões de carbono de 2026 em apenas 10 dias, diz ONG
O levantamento considera uma cota de emissões compatível para evitar que o aquecimento do planeta supere 1,5°C em relação à era pré-industrial

Foto: Imagem ilustrativa/Pexels
GABRIEL GAMA
O 1% mais rico da população mundial esgotou o que deveria ser o seu limite de emissões de carbono de 2026 nos primeiros dez dias do ano. É o que aponta uma análise da ONG internacional Oxfam publicada neste sábado (10).
O levantamento considera uma cota de emissões compatível para evitar que o aquecimento do planeta supere 1,5°C em relação à era pré-industrial. O Acordo de Paris, assinado em 2015, estabeleceu esse limite para evitar as piores consequências das mudanças climáticas.
Para manter o objetivo viável, os pesquisadores calculam que cada indivíduo teria o direito de emitir 2,1 toneladas anuais de CO2 (dióxido de carbono) até 2030, com base em dados do Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente).
A elite mundial, porém, polui bem mais do que deveria. O 1% mais rico lança 75,1 toneladas de CO2 por pessoa na atmosfera a cada ano -assim, dez dias são suficientes para gastar toda a cota anual de carbono dessa faixa da sociedade.
A desigualdade é ainda maior no 0,1% mais rico do planeta. Segundo a Oxfam, o grupo esgotou sua parcela de emissões de 2026 no dia 3 de janeiro. Se toda a população tivesse os mesmos hábitos de consumo desse estrato, o "orçamento" climático anual acabaria nas primeiras três semanas de 2026, de acordo com a ONG.
Segundo o estudo, o grupo precisaria reduzir suas emissões em 97% até 2030 para limitar o aquecimento global em 1,5°C.
A pesquisa diz que cada bilionário carrega, em média, uma carteira de investimentos em empresas que produzirão 1,9 milhão de toneladas de CO2 por ano. Também afirma que a poluição climática dos mais ricos causa danos econômicos a países de baixa e média-baixa renda que podem somar US$ 44 trilhões (R$ 236 trilhões) até 2050.
A ONG estima que as emissões do 1% mais rico geradas em apenas um ano causarão 1,3 milhão de mortes ligadas ao calor extremo até o final do século.
Nafkote Dabi, líder de Política Climática da Oxfam, afirmou que os governos devem focar nos grandes poluidores para reduzir as emissões e combater a desigualdade. "Ao reprimir a extrema imprudência com o carbono dos super-ricos, os líderes globais têm a oportunidade de recolocar o mundo no caminho das metas climáticas e desbloquear benefícios líquidos para as pessoas e o planeta."
Dados preliminares do observatório Copernicus, da União Europeia, indicam que 2025 deve se confirmar como o segundo ou o terceiro ano mais quente já registrado. É provável que a média do aumento da temperatura de 2023 a 2025 supere 1,5°C -se isso for confirmado, será a primeira vez em que o limite mais seguro do aquecimento global é rompido em observações de três anos.
Como soluções, a Oxfam indica o aumento de impostos sobre a renda e a riqueza dos super-ricos, em especial sobre os lucros de empresas de combustíveis fósseis. Conforme a ONG, a taxação de 585 companhias de petróleo, gás e carvão poderia arrecadar até US$ 400 bilhões (R$ 2,1 trilhões) em um ano.
Outra sugestão é tributar itens de luxo ligados a altas emissões de carbono. "A pegada de carbono de um europeu super-rico, acumulada em apenas uma semana usando superiates e jatos particulares, equivale à pegada de carbono ao longo da vida de uma pessoa entre os 1% mais pobres do mundo", diz o estudo.

